Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

Por que eu odeio livros grandes

Tá, não odeio odeio. Mas livros com mais de 400 páginas trazem sérias desvantagens, e sinto que rola um fetiche literário em volta deles que os imunizam de crítica. Terminar um livro grande é como um atestado de suas ótimas habilidades leitoras, algo que te coloca num patamar acima, a ser louvado.

O que ninguém glorifica é a dificuldade de achar uma posição confortável para ler o bendito. Sentada no sofá, o exemplar em cima do colo ou de uma almofada, causa dor no pescoço. Para aliviar, você pega o livro nas mãos e segura na altura dos olhos – aí são os braços que começam a doer. Deita de costas, apoia o cotovelo na cama e BAM!, aquele quilo de papel cai na sua cara (pior ainda se você usa óculos). Vira de barriga e o pescoço volta a doer. Nessa dança toda você já se distraiu tanto que teve que ler o mesmo parágrafo quatro vezes. Sofrência!

"Reading positions", por Kate Beaton (http://beatonna.tumblr.com/)

“Reading positions”, por Kate Beaton (http://beatonna.tumblr.com/)

Outro dilema é não poder levar a leitura com você numa bolsa, ou porque não cabe, ou porque fica muito pesado. Afinal, lá dentro já tem uma blusa de frio e um guarda-chuva, pois você mora em São Paulo. Levar no braço também não é ideal, principalmente se você precisa usar transporte público (tenta se segurar numa curva acelerada do ônibus ao mesmo que carrega uma cópia de Grande Sertão: Veredas! Viver é muito perigoso). Livros grandes não permitem que as orelhas sejam utilizadas como marca-página sem que elas fiquem dobradas, o que obviamente configura uma violação do Sagrado Manual da Boa Conservação de Um Livro.

Aí você me diz: Mas Marina! Todos esses problemas são resolvidos com um leitor digital. Concordo, minha vida depois do Kindle ficou muito mais leve, prática e versátil. O que nos leva ao último inconveniente da literatura de longa distância: a imersão na história. Dessa não tem escapatória. Lendo rápido, engolindo o livro em uma semana como se não houvesse amanhã, é como mergulhar numa realidade paralela. Ao sair dela, você se encontra de pijama, com o cabelo bagunçado, fome e sono, sem saber qual é o dia em quem é presidente. Como assim, tem faculdade? Apenas ontem eu estava no Ninho da Águia, não dá tempo de chegar lá!

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E se você tem auto-controle suficiente para ler com calma, digamos, um capítulo por dia, aqueles personagens se inserem na sua rotina e se tornam parte da sua vida normal. É uma fase de conforto e segurança por ter aquela companhia diária garantida. Você começa a começa a esquecer o que era o cotidiano antes daquela história, de tão sedimentada que ela se faz. Torna-se um hábito. E aí acaba. Como todo fim de relacionamento, te deixa sem chão, desnorteada, sentido um vazio e uma saudade que ocupa suas horas vagas. Ambos os casos de ressaca literária requerem tempo para passar. Não aconselho começar um livro logo em seguida, para substituir – não vai ser a mesma coisa, e você nem vai conseguir aproveitar a nova história como ela merece. É melhor cumprir o luto. No máximo, leia um crônica. Ou um post de blog dramatizando a leitura de livros grandes. *piscadinha*

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