Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

DR no ônibus

– É, você me avisa que eu não vou mais no mesmo final de semana que você Eu não falei isso, falei me avisa. Não mesmo, para de ser otário. Para de ser otário!

Domingo de páscoa, à noite. Milhares de pessoas retornam para São Paulo. As estradas estão cheias, movimentando rodoviárias do interior e litoral e lotando seus ônibus. Cerca de 40 pessoas viajam no carro que sai de Atibaia às 19 horas.

– Você tá se achando pra quem? Quem que tá junto que você tá se achando aí? Passa o telefone pra pessoa que você tá que eu explico o quão otário que você tá sendo, se achando. Para de ser otário, meu, só responde!

A voz parte do assento número 30 e ecoa por dentro do veículo. Não está alterada. Não está suficientemente inconveniente para justificar uma intervenção.

– Responde, então. Responde então, onde cê tá? Aah, então você tá sozinho? Ah, tá bom, tá achado que eu sou idiota. Não, eu quero saber a verdade, só isso. Responde! Por que não? Não é obrigado, mas falar a verdade é bom.

Uma mãe e sua filha pequena viajam juntas. A menina é curiosa, e pede para ver alguma coisa. “Tem que ser bem baixinho para não atrapalhar as pessoas, tá bom?”, sussurra a mãe. Ao lado delas, a ligação continua.

– Então fala. Então fala a verdade, caralho! Fala a verdade, você tá com medo de quê? Cê tá com medo do quê, fala pra mim, cê tá com medo do quê? Fala, fala do que você tá com medo, fala pra mim. Cê tá com medinho do quê? De você me contar que cê veio pra cá, heim? Fala pra mim do que cê tá com medinho.

Alguns sortudos de sono profundo seguem desavisados da Discussão de Relacionamento da completa estranha que viaja com eles.

– Eu te liguei na sexta-feira falando ‘ó, vou passar o fim de semana em Atibaia, me avisa se você for pra lá’. Você acha que eu ia pedir pra você me avisar se não fosse pra quê, além de eu ir embora? Não quero ter a chance de cruzar com você. Ah é? Então porque você não me avisou que você tava aqui? Não, não foi, lindo. Eu sou bem explícita quando eu quero te ver. Aham, então responde a verdade.

Um passageiro passa a caminho do banheiro. Seu fone de ouvido toca tão alto que é possível identificar a música enquanto ele passa.

– Então porque você mentiu que veio pra cá? Então responde! Responde. Eu tava na Lucas e eu vi você descendo de carro. Eu tava na Lucas, da Lucas. É…

“Alto não pode, Giovana! Tem que ser baixo. Tem outras pessoas no ônibus”, ensina a mãe da menina, numa voz baixa.

– Responde. Responde, para de ser otário! Cê quer uma guerra comigo, ou cê quer…? Ahh, é isso que você quer? Então você ver pra minha cidade, pro lugar que eu frequento… Meu, eu vi você indo e desisti, falei ‘não, vou voltar’. Você sabia? Juro por tudo que é mais sagrado. Por que você acha que eu tô te falando tudo isso agora? Eu vi para onde você foi! Podia ter entrado lá e te falado um monte de merda. Aham, é, voltou sim. Aham. Então você mentiu mesmo, você tava lá.

Voz de criança. “As pessoas estão dormindo, olha ali. Você não quer acordar ele, né?”, pergunta suavemente a mãe, num volume audível para, no mínimo, três assentos ao redor. A voz que fala ao telefone finalmente se cala.

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Publicado às abril 5, 2015 por em Uncategorized e marcado , , , , , , .
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