Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

Precisamos falar sobre consenso e estupro

Toda vez que eu entro numa conversa sobre abuso sexual, alguma mulher compartilha sua história (se o espaço for seguro, claro). Já perdi a conta de quantos relatos li e ouvi. Na realidade, corremos um risco tão alto que é quase certeza que passaremos por pelo menos UMA situação em que nosso consentimento de um ato sexual não será respeitado, levado em consideração ou dado de forma consciente. Isso configura um cenário em que todas as mulheres, se já não são sobreviventes, são vítimas potenciais da tal cultura do estupro. Porque seremos obrigadas a lidar com os efeitos dessa violência, conversar sobre o tema é fundamental.

Minha educação foi consideravelmente liberal diante do sexo. Meus pais (principalmente minha mãe) sempre se esforçaram para não deixar virar tabu. E, como se espera de pessoas decentes, condenam o estupro. Acho que todo mundo, em sã consciência, condena. É errado, lógico! Mas de que adianta condenar uma coisa que não se entende? Não lembro de ter tido uma conversa sequer, na família ou na escola, sobre o que era sexo consensual e o que era estupro. E aí comprei essa ideia de que era algo assustador que acontecia em becos escuros à noite, a meninas desprotegidas e sozinhas, ou causada por homens malvados que iriam me atrair para seus carros, me sequestrar e violentar.

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Alaska S. Kellum colocou apito, chave inglesa e spray de pimenta no chaveiro para ilustrar o que é ser mulher.

 

Assim, quando iniciei minha vida sexual, eu não sabia quais eram os limites. E já vamos deixar claro aqui que sexo não é só penetração do pênis na vagina. Começa bem antes, no desejo, atração, beijo, carícias e por aí vai, e não envolve necessariamente esses dois órgãos sexuais. Tô falando de sexo de seres humanos! Eis que me encontro beijando um rapaz numa festa, curtindo a experiência, até que ele abre o zíper da minha blusa. Eu levo um susto, interrompo o beijo e olho para ele. Numa fração de segundo, meu sentimento passa de medo para culpa. “Desculpa, aí é já demais para mim”. Mais pra frente, proferi frases parecidas. “Foi mal, eu sou virgem”. “Sinto muito, não me sinto à vontade”. Algumas vezes, fui respeitada. Outras, não.

Somente com o feminismo eu fui introduzida ao conceito de consensualidade, e percebi como em várias ocasiões ele tinha sido ignorado. O feminismo me ensinou que eu tenho direito de dizer não, que qualquer avanço não desejado é abuso, que eu não precisava me desculpar quando não correspondesse às expectativas sexuais de outra pessoa, pois não era minha obrigação. Me ensinou que a culpa não era minha, mesmo que eu tivesse bebido. Que eu não estava sozinha, coisas assim infelizmente eram comuns, e aconteciam em sua maioria no meio doméstico, por alguém conhecido. Abriu meus olhos para a sociedade patriarcal em que a mulher é objetificada (um objeto não tem vontade própria nem voz para falar por si mesmo), ainda por cima culpabilizada.

Me dar conta de todas essas coisas não foi, e ainda não é, fácil. A gente percebe o quanto foi diminuída, e isso dói. Mas também empodera. Hoje eu tenho mais controle quando resolvo me relacionar com alguém. Tenho o apoio constante de mulheres maravilhosas em grupos online e coletivos. O mais incrível é que toda essa conscientização aconteceu num período de dois, três anos. Pouco, quando se coloca em perspectiva a vida humana, as gerações culturais. Por isso tenho fé de que as coisas vão melhorar, e vou contribuindo para a mudança. Então, para fechar:

SEXO SÓ É OK QUANDO AS DUAS PARTES ESTÃO 100% SEGURAS, CONSCIENTES E COM VONTADE.

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