Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

Fazendo a rapa no Facebook: bolha ou curadoria?

Certo dia, há uns dois anos atrás, olhei para as centenas de amizades que eu tinha no Facebook e me perguntei por que elas estavam ali. Pessoas do colégio que nem me davam bom dia, amigas da minha mãe, gente da igreja que eu costumava frequentar, e até alguns completos estranhos, que eu devo ter adicionado pra jogar joguinho, back in 2008 quando essa era única utilidade da rede na minha vida. Cheguei à conclusão de que não tinha motivo para manter laços virtuais com quem eu não tinha menor interesse em manter laços na vida real, e soltei a mão no ‘desfazer amizade’. Cortei quase pela metade, e fiquei com uns 300 e poucos amigos.

Um tempo depois começou uma mania de entrar em fanpages vergonhosas para ver se você tinha amigos que as curtiam – tipo as páginas de Jair Bolsonaro, Danilo Gentili, Luan Santana, Romero Britto e etc. Fiquei feliz em constatar que a minha limpa espontânea já tinha dado conta de tirar do meu círculo virtual pessoas que eram fãs de discursos que eu considero nocivos para uma boa convivência em sociedade (quanto aos artistas não me importo, fala sério, aí é gosto e a gente tem que aceitar sem discussão).

Com a aproximação das eleições presidenciais de 2014 a internet ferveu, e essa coisa de desfazer amizade, bloquear ou deixar de seguir a torto e a direito voltou com tudo. Não vou nem comentar o clima real dentro das casas e escritórios, vocês sabem como foi, e não vem ao caso aqui. O que aconteceu de diferente nesse momento foi que as pessoas à minha volta começaram a questionar essa atitude de deletar perfis com opiniões contrárias. Minhas amigas jornalistas, apesar de se irritarem com postagens reacionárias, condenavam o ato de se “fechar numa bolha” esquerdo-universitária, criando uma linha do tempo eleitora de Dilma, Luciana ou Eduardo.

Elas diziam que era importante manter amizade com pessoas de ideologias diferentes, do contrário nós perderíamos noção da realidade, que é diversa e conflituosa. Apesar de concordar com a lógica delas, eu ainda não consigo me sentir culpada pelos laços cortados, nem tenho vontade de reatá-los. Uma porque, como contei no começo, quem eu tirei da timeline foram pessoas que já não tinham lugar na minha vida, com quem não me sinto confortável em compartilhar fotos e relatos íntimos. Outra porque não concordo que essa filtragem de interesse no Facebook te impeça de enxergar a pluralidade política brasileira. É só entrar num portal de notícias, que as matérias e os comentários muitas vezes vão de encontro com o meu posicionamento, constantemente colocando-os em cheque.

Eu reconheço, porém, que excluir pessoas de pensamento divergente ao seu é uma atitude perigosa. Não buscar compensar em outros lugares, indo atrás de debates e leituras “do outro lado”, realmente, te coloca num buraco com terreno fértil para a intolerância. Tanto que a recomendação no fim da matéria de capa da revista Galileu deste mês, sobre fanatismo no Brasil, é adicionar novamente aquele amigo excluído durante as eleições e os protestos de março. O professor de filosofia entrevistado pela reportagem, Ricardo Bins di Napoli, recomenda criarmos uma cultura de tolerância, que é a “capacidade de se abster de intervir na opinião do outro, mesmo que se desaprove ou se tenha o poder para calá-la, cerceá-la ou até prendê-la”, para que a democracia funcione com plenitude.

pobrane-5

por Pawel Kuczynski

 

 

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2 comentários em “Fazendo a rapa no Facebook: bolha ou curadoria?

  1. Lorena
    abril 9, 2015

    acho que foi o duvivier que fez um texto sobre ter tolerância com opiniões divergentes num passado recente, ams eu lembro de ter lido e pensando que discordava (oh, a ironia) muito dele.

    eu entendo o ponto de manter conexão com pessoas de outras ideologias, mas fico pensando qual é o limite. pra mim, é bem parecido com o que eu acharia aceitável na vida real. pessoa votou no aécio porque acredita em um sistema capitalista mais liberal? ok migo, que seja, a gente supera. pessoa fazia discurso “os vagabundos do bolsa família”? talvez não. e aí sempre tem aquele que diz que mulher merece ser estuprada ou coisas do tipo e eu penso que jamais aceitaria ouvir isso na vida real, então não vou me sujeitar na internet.

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    • marinavieirasouza
      abril 10, 2015

      exatamente, não sou obrigada a ficar vendo besteira de quem não tem vontade de debater racionalmente, só vomitar umas provocações e discursos de ódio. na vida real a gente já aguenta umas pessoas assim por obrigação, na internet onde tenho a chance de me livrar das pragas não o farei? farei sim! hahaha

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Publicado às abril 9, 2015 por em Cá com meus botões... e marcado , , , , , , .
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