Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

Uma garota contra a sinusite

A manhã de domingo acordou com a promessa de ser tão boa quanto uma manhã ordinária de domingo é capaz. O sábado tinha sido ótimo: na feirinha de manhã, sob um sol gostoso de outono, Ana Júlia fez o dinheiro render em boas aquisições, e trocou desejos de felicidade com a vendedora simpática. Na janela que tinha entre os compromissos sociais, fez as tarefas domésticas (com o prazer que Ana Júlia sempre sentia em cuidar de seu lar) e ainda teve tempo de tocar seu projeto pessoal.
Banho tomado e cabelo ajeitado, ela partiu para o almoço comemorativo do trabalho. Eles conseguiram!  O projeto fora um sucesso. Ana desfrutou de uma refeição regata a conversas sobre ideologias políticas e vídeos virais antes do youtube. A carne estava tão macia que não era preciso nem faca para cortá-la, e a sobremesa era uma mistura de doçura com gelado e apimentado, improvável porém certeira. Os colegas levaram bebidas diferentes, e a moça fez sucesso com a pinga de gengibre que ela comprara na feira de manhã. Cervejas e vinhos depois, o grupo sentou-se no chão para uma partida de um jogo de tabuleiro. Da janela vinha um vento gelado, típico de Pinheiros, para o qual Ana não deu bola, concentrada em ganhar (não conseguiu).
Ela saiu do apartamento logo que escurecida, a caminho do aniversário de uma de suas amigas mais queridas. Reviu gente da faculdade e teve dor na bochecha de tanto rir das pérolas sexuais contadas pelas pessoas. Os dois ônibus que precisava pegar na volta pra casa passaram rápido, de forma que Ana ainda teve tempo de assistir um filme que estava na sua lista desde a indicação ao Oscar. Foi dormir despreocupada, com um ligeiro incômodo no céu da boca.

Acordou antes do sol por causa de um espirro. Veio desavisado e impossível de conter, e como uma andorinha, trouxe muitos outros consigo. Ana deu tempo para eles passarem e tentou voltar a dormir, afinal, esse seria o dia da preguiça. A sinusite porém já colocou as cartas na mesa: hoje você  é minha escrava. E quando ela chega, não tem como escapar do Ciclo de Reações à Inflamações. Primeiro, tenta-se ignorar. Ana fez isso com a cabeça teimosamente no travesseiro, de olhos fechados. Os espirros a venceram no segundo round.

De pé e acordada, a paulista tentou então superar a sinusite, viver a vida pois apesar de você amanhã há de ser outro dia (uma segunda-feira, então hoje tem que aproveitar). Foi fazer café da manhã, regou as plantas, viu as atualizações dos amigos nas redes sociais. A maldita não gostou, e se fez maior. Ana Júlia sentiu a coceira que vem de lugar nenhum, tentou alcançá-la com a língua, pelo céu da boca, com o dedinho, pelo ouvido, com os músculos, pelo maxilar. O alívio durou apenas enquanto se coçava. Quando parou, foi como se tivesse abastecido a sinusite, e a coceira voltou mais forte. Resignada, tentou uma coexistência pacífica, como Gandhi ensinava.
Sentou-se no sofá para ler. Estava numa parte boa da história, e confiava no autor para te tirar de seu corpo traíra e levá-la num mundo de fantasias onde fossas nasais funcionam sem problemas. Não chegou a avançar nem um capítulo. Sucumbiu ao estágio da raiva, da vontade de arrancar a cabeça e jogá-la pela janela do prédio. Ligou o videogame no jogo de luta e tentou descarregar a violência contra a alergia ali, nos 7 ex-namorados de Ramona Flowers.
Como seu nível de paciência já estava baixo, no primeiro game over desistiu. Repetiu os passos de ignorar, superar, conviver e, quando chegou na raiva novamente, usou-a como motivação para fazer janta e limpar o resto da casa. Estava até otimista com seu desempenho na batalha. Era a calma antes da tempestade… A coceira e os espirros voltaram juntos com uma dor de cabeça descomunal, e Ana Júlia teve vontade de se largar no chão em posição fetal e chorar até que as bactérias fossem embora. Resignada, derrotada, foi dormir com os olhos vernelhos e inchados, e um mau humor digno de brasileiro depois do 7×1.

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Um comentário em “Uma garota contra a sinusite

  1. Lorena
    abril 18, 2015

    história da minha vida

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às abril 12, 2015 por em BEDA e marcado , , .
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