Gotinhas no oceano

pessoando entre milhões de seres humanos

Todo apoio a Verônica Bolina

Umas das primeiras coisas que vi hoje foi a foto que Maria Clara Araújo postou de uma mulher sem blusa, de mãos amarradas para trás, sentada no chão, com o rosto desfigurado de tanto apanhar, cercada por policiais. Ao lado tinha a foto dela antes de ser agredida, num espelho de casa, com roupa de malhar. Eu não sabia o que tinha acontecido para ela estar presa, mas não importava. A foto foi suficiente para denunciar a humilhação de um ser humano e me fazer revirar o estômago.

Descobri depois que se tratava de Verônica Bolina, uma travesti negra. Maria Clara é uma mulher trans (também negra) que sigo no Facebook, a primeira a entrar numa universidade federal brasileira. Desde meu segundo ano na faculdade me percebi fascinada pela discussão de gênero, especialmente a transexualidade. Passei muito tempo vendo matérias sobre a vida de pessoas que não se identificavam com o gênero designado no nascimento. Minha curiosidade em entender algo que não fazia nem um pouco parte da minha realidade (sempre me senti mulher, sempre fui vista como mulher) chegou num ponto que me senti culpada, entrei em crise sobre o meu lugar nessa história.

Afinal, são pessoas de que estamos falando, não objetos de estudo acadêmico ou obras de arte para contemplação e decifração. E são pessoas marginalizadas, uma das minorias que mais sofrem com a falta de direitos e proteção do Estado. Por um lado, me sentia compelida a ajudar, me envolver de alguma forma – jornalística, que é o que sei fazer. Por outro, escutava que o protagonismo devia ser delas mesmas. Me afastei do tema.

Ao mesmo tempo, tentava entender porque o feminismo tem que ser interseccional, isto é, abraçar outras lutas, como a contra racismo e a LGBT. Por que tem que ser feminismo negro? Não somos todas mulheres? O machismo não tem a ver com o racismo, nem com orientação sexual… Minha ficha só foi cair quando eu lembrei que uma mulher rica pode fazer um aborto sem correr risco de vida. Sim, somos todas mulheres, mas para que a união funcione devemos enxergar nossas particularidades. Existem pessoas atingidas por mais de um tipo de opressão, e isso deve ser levado em conta. Porque no meu feminismo, eu me preocupo com a representação do corpo da mulher na mídia, e cantadas na rua. E no feminismo de outras, de origens sociais diferentes, a batalha é contra o marido que bate e estupra, é pela creche que não tem vagas.

Já ouvi reclamação de uma irmã sobre esse feminismo branco que pede que ela esqueça que é negra e pense apenas em ser mulher, enquanto a sociedade a julga e deprecia por sua cor. E já ouvi desabafos de companheiras sobre o destaque que o movimento LGBT tem ganhado e como isso às vezes incomoda porque poxa, ainda nem resolvemos a questão do salário igualitário! Isso acontece, como Kerry Washington brilhantemente apontou, porque a opressão é tão grande que nós, minorias de poder, achamos que tem assentos limitados no hall dos direitos humanos, e acabamos lutando entre nós para ver quem é que vai conseguir o lugar.

Não precisamos escolher um só! O negócio lindo do direito humano é que ele se aplica A TODO MUNDO. CADA INDIVÍDUO MERECE UMA VIDA DIGNA. Por isso que mesmo não sendo trans*, mesmo não sendo negra, mesmo tendo dificuldade em reconhecer meus privilégios, eu posso (e devo) levantar minha voz para defender pessoas como Verônica. Porque no fim, é só isso que importa: ela é uma pessoa.

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2 comentários em “Todo apoio a Verônica Bolina

  1. Lorena
    abril 18, 2015

    eu sempre penso nisso. sou muito adepta de feminismo interseccional e a gente passa por aquela fase “mas pera, por que estamos falando de modelos plus-size se tem gente que passa fome (e afins)?”. mas né, na real nenhuma das coisas tem o destaque que merece e todas precisam ser mais trazidas à tona. até porque muitas vezes a realidade de alguém mistura diversos tipo de opressão.

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    • marinavieirasouza
      abril 18, 2015

      pois é, não precisamos limitar as pautas nem desvalorizar uma para fazer com que outra seja atendida. tem tanta gente nesse mundo! dá para levar todas as bandeiras à diante, contanto que haja vontade dos espaços de se diversificarem.

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